Como Identificar os Cristãos, os Protestantes, e os Diversos Ramos Protestantes?

[Artigo originalmente publicado no meu blog Theological Space, em 14.7.2020, no seguinte endereço: (https://theological.space/2020/07/14/como-identificar-os-cristaos-os-protestantes-e-os-diversos-ramos-protestantes/%5D

1. Preâmbulo (de Leitura Dispensável)

Uma das minhas qualificações profissionais é ser Historiador da Igreja Cristã e do Pensamento Cristão — ou seja, Historiador do Cristianismo. Preparei-me para ser isso, depois de, em 1959, terminar o Curso Ginasial, ou o Ginásio (hoje chamado de Educação Escolar de Nível Fundamental II). Fui fazer o Curso Colegial Clássico (hoje chamado de Educação Escolar de Nível Médio) em um Colégio Interno da Igreja Presbiteriana do Brasil, para me preparar melhor para ingressar no Seminário. E, em 1964, fui para o Seminário Presbiteriano de Campinas. Mas há um ditado que diz que Deus, quando nos vê fazendo planos muito bem definidos e precisos, dá risadas, pensando com seus botões: “Mal sabe ele que…”.

Comigo foi assim. No caminho, vários de meus planos, ou nem começaram a ser executados, ou, se começaram, deram errado… Precisei fazer várias correções de rumo, dei várias guinadas, umas mais fortes, outras, nem tanto… Meu Curso de Bacharelado em Teologia passou por três Seminários: o Seminário Presbiteriano de Campinas, em Campinas, SP, a Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, em São Leopoldo, RS, e o Seminário Teológico Presbiteriano de Pittsburgh, em Pittsburgh, PA.

Além desse itinerário meio acidentado envolvendo três Seminários, dei uma guinada, não muito forte, para trabalhar com a História da Filosofia Ocidental (que, no Ocidente, é algo bastante próximo da História do Pensamento Cristão Ocidental). Depois dei várias guinadinhas, dentro da Filosofia: trabalhar, não tanto com História da Filosofia (minha especialização era o século 18), mas com Epistemologia (Teoria do Conhecimento), depois com a Filosofia Política (Liberalismo e Libertarianismo versus Socialismo e Comunismo), depois com a Filosofia da Educação (Educação Tradicional, focada na transmissão de conhecimentos, na escola, no professor, no ensino, no currículo, nos exames e provas, versus Educação Inovadora, focada no desenvolvimento humano, na vida, no aprendente, na aprendizagem, nas competências e habilidades necessárias para a definição e implementação de um projeto de vida, e avaliada na vida vivida, no grau de sucesso alcançado na consecução de nossos objetivos pessoais e profissionais).

Foi só em 2014, depois de aposentado da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), onde trabalhei por quase 33 anos, que vim a atuar, profissionalmente, na área da História da Igreja Cristã e do Pensamento Cristão, na Faculdade de Teologia da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (FATIPI). Mesmo assim, por apenas três anos e meio. Custei chegar lá e fiquei lá pouco tempo. Daí aposentei-me de vez.

Mas creio ter condições de esclarecer, do meu jeito (My Way…) a questão que dá título a este artigo. Advirto os leitores, porém, de que muita gente pode não concordar com minha explicação. Dentro das religiões, em geral, e do Cristianismo, em particular, e, no Cristianismo, dentro do Protestantismo, de forma particularíssima, paixões afloram com facilidade e pessoas se ofendem, com razoável facilidade, com sua opinião sobre a religião, em geral, e o Cristianismo, em particular. Mas hoje parece que o mundo inteiro é assim, não é mesmo? Tem casca meio fina, se escandaliza e se ofende com muita facilidade, e, quando se escandaliza ou se ofende com algo que você diz, não raro quer proibir você de dizê-lo…

Deixo claro, portanto, de início, de onde venho. (Para onde vou, não sei: sobre o futuro tenho mais esperança do que fé). Nasci na Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB). Esse é o nome de uma denominação protestante brasileira que se orienta por princípios presbiterianos (que são princípios doutrinários calvinistas – originados com João Calvino [1509-1564] – e princípios organizacionais escoceses – originados com João Knox [1514-1572], que estudou em Genebra com Calvino). Meu pai era pastor nessa igreja (Oscar Chaves [1912-1991]). Foi pastor nela durante quase 50 anos, do fim de 1941, quando se formou, até Março de 1991, quando morreu, passando por sua licenciatura, em 26.1.1942, e sua ordenação, em 31.1.1943. Nasci virtualmente dentro da Igreja Presbiteriana de Lucélia, SP, que foi fundada pelo meu pai em 1943, como uma igreja local, dentro da denominação IPB (fundada em 1859, por missionários americanos). Com esses antepassados, não foi nenhuma surpresa que em 16.2.1964 eu tenha ingressado no mesmo seminário em que meu pai havia se formado vinte e três anos antes, em 1941: o Seminário Presbiteriano do Sul (SPS), de Campinas,

No entanto, aqui aparecem os imprevistos que o planejamento da gente em geral não leva em conta. Em Agosto de 1966 fui desligado, contra a minha vontade, do SPS.  “Ser desligado contra a vontade” é eufemismo para ser desligado, mandado embora, expulso. Mas eu não era de desistir facilmente. Depois de ser desligado do SPS, estudei por um semestre (o primeiro de 1967) em um Seminário, chamado de Faculdade de Teologia (FT), da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), em São Leopoldo, RS. A IECLB é outra denominação protestante brasileira, mas ela se orienta por princípios luteranos (derivados de Martinho Lutero [1483-1546]), não calvinistas (derivados de João Calvino). Só fiquei lá um semestre. No segundo semestre de 1967 fui estudar nos Estados Unidos, no Pittsburgh Theological Seminary (PTS), em Pittsburgh, PA, que pertencia a uma denominação presbiteriana americana, que, naquela época, se chamava United Presbyterian Church in the USA (UPC-USA – Igreja Presbiteriana Unida nos Estados Unidos). Hoje, depois de se juntar com outras denominações presbiterianas, ela tem outro nome: Presbyterian Church – US (Igreja Presbiteriana – EU).

Os termos e as siglas às vezes deixam as pessoas com dificuldade para entender. Na verdade, ninguém deve ter vergonha de não entender essas coisas, porque elas são realmente complicadas. Por isso escrevo este artigo inicial.

2. Conceitos Básicos: Religião, Cristianismo e Protestantismo

Vou procurar definir, inicialmente, alguns termos, especialmente Religião, Cristianismo e Protestantismo.

Religião: um conceito amplo, que geralmente se aplica a um grande conglomerado — um monte de gente. Mas isso não quer dizer que não possa haver religiões pequenas: há várias. Existem, por exemplo, e simplificando, as três grandes religiões globais monoteístas, isto é, que acreditam que existe um, e apenas um, Deus: o Judaísmo (a mais antiga religião dessas três religiões, cujo local e data de origem são questões complicadas e controvertidas, tendo surgido entre nômades, e só muito tempo depois se consolidando e instalando na Galileia, Samaria e Judeia, locais em que hoje se encontra o estado de Israel, Abrahão sendo considerado o fundador do Judaísmo); o Cristianismo (que nasceu dentro do Judaísmo, na então chamada Palestina [Galilea, Samaria, Judea, etc], no início da nossa era [a data precisa é controvertida], e até certo ponto incorporou muitas tradições do Judaísmo, inclusive a sua história, as suas Escrituras e as suas profecias, Jesus de Nazaré, chamado também de Jesus Cristo, sendo considerado o seu fundador); e o Islamismo (que se considera derivada tanto do Judaísmo como do Cristianismo, e que surgiu no Oriente Médio no século 7 da nossa era, com Maomé [ou Muhammad, ou Mohammed (razão pela qual o Islamismo é às vezes chamado de Maometanismo ou Muçulmanismo), no século 7 [622 AD] da nossa era], .

Todas essas três se consideram religiões “Abraâmicas”, isto é, originadas de um pacto (acordo) que teria sido firmado entre Deus e o grande patriarca Abraão (pai de Isaque e avô de Jacó, cujos filhos deram nome às Doze Tribos de Israel).

3. O Cristianismo

O Cristianismo, portanto, se originou com Jesus de Nazaré, ou Jesus Cristo, na Palestina, no primeiro século da nossa era), e de lá se esparramou pelo mundo.

Fora essas três grandes religiões monoteístas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), existem múltiplas religiões politeístas, que admitem a existência de vários deuses, como o Zoroastranismo e o Hinduísmo, e religiões que parecem não acreditar em nenhum deus, como é o caso do Budismo. Aqui no Ocidente têm aparecido, em tempos recentes, religiões ateias — religiões de gente que não acredita em Deus mas gosta da vida de igreja, da prática da comunhão, da cantoria de hinos, até da pregação de sermões. Mas vamos deixar todas essas religiões do lado, inclusive o Judaísmo e o Islamismo, só fazendo referência a estas duas quando estritamente necessário. O foco, daqui para frente, estará no Cristianismo.

Cristianismo: havia basicamente dois grandes ramos do Cristianismo até o século 16 (que começou em 1500): o Ramo Católico (Ocidental, que privilegiava a língua latina) e o Ramo Ortodoxo (Oriental, que privilegiava a língua grega). Esses dois ramos oficialmente se separaram um do outro no século 11, em 1054, embora na prática já estivessem separados há bem mais tempo. Tanto o Ramo Católico como o Ramo Ortodoxo continuaram a ser, no entanto, Igrejas Cristãs, mas sem vínculo institucional que as ligasse.

No século 16 (a partir de 1517) teve início a Reforma Protestante, iniciada por Martinho Lutero, e, com ela, o Cristianismo Ocidental, Católico (não o Oriental, Ortodoxo), se dividiu em dois ramos: além do Ramo Católico, que já existia, passou a haver um Ramo Protestante (que, por sua vez, se dividiu em vários ramos menores).

Assim, é hoje comum reconhecer que há três grandes ramos dentro do Cristianismo: o Católico e o Protestante, predominantes no Ocidente, mas presentes em todo o mundo, e o Ortodoxo, que predomina, ou predominava, no Oriente, mas também está presente, mas em menor grau, em todo o mundo (e que, em geral, se divide geograficamente: Grego, Russo, Africano, etc.).

Embora a Igreja Católica não seja de todo ignorada no que segue, o foco, daqui para frente, será no Protestantismo.

4. O Protestantismo: Tendências e Denominações

Protestantismo: O Protestantismo é considerado um ramo só, mas é considerado o ramo mais dividido do Cristianismo. As divisões, dentro dele, se dão, em regra, por causa de diferenças ou tendências, que podem ser: Teológicas (que têm que ver com o que as pessoas pensam ou em que acreditam); Éticas (que têm que ver como as pessoas se comportam em sua vida privada ou pública); Litúrgicas (que têm que ver como a igreja organiza o seu culto e o seu louvor); ou Institucionais (que têm que ver como a igreja se estrutura e organiza administrativamente).

Há inúmeras dessas tendências dentro do Protestantismo. A tendência original é a Luterana, dependente de Martinho Lutero, que surgiu a partir de Wittenberg, Alemanha; depois surgiu a tendência Calvinista, dependente de João Calvino, que surgiu a partir de Genebra, hoje na Suíça, então uma Cidade-República Livre e Independente (sendo essa tendência chamada, na Europa, de Reformada, como se as outras não fossem reformadas, e, nas Ilhas Britânicas, nos Estados Unidos, no Brasil, etc., de Presbiteriana); mais ou menos ao mesmo tempo, na realidade, até um pouco antes, surgiu a tendência Anglicana, dependente do Rei Henrique VIII e seus sucessores, a partir de Londres, na Inglaterra (e predominante nas Ilhas Britânicas e nas ex-colônias britânicas, mas existente hoje no mundo inteiro); em seguida vieram as tendências Batista (ainda no século 16-17) e a Metodista (no século 18), além de algumas tendências menores: Menonitas, Quakers, Amish, Mórmons, Adventistas, etc. No século 20 surgiu a tendência Pentecostal, que, apesar de ser a mais recente, é hoje, de todas as tendências Protestantes, certamente a maior, numericamente falando, embora números sejam enganosos porque a tendência Pentecostal também é grandemente subdividida. Ela engloba, aqui no Brasil, a Assembleia de Deus, a Congregação Cristã, o Evangelho Quadrangular, etc. Mais recentemente (a partir da década de 1970) surgiram, no Brasil, mas rapidamente se tornaram multinacionais, a Igreja Universal do Reino de Deus (fundada por Emir Macedo), a Igreja Internacional da Graça de Deus (fundada por R. R. Soares), a Igreja Mundial do Poder de Deus (fundada por Valdemiro Santiago), cada uma derivada das anteriores. Elas são chamadas de Neo-Pentecostais, porque são mais recentes. E há várias outras Igrejas Neo-Pentecostais, com nomes até incomuns, como a Igreja Apostólica Renascer em Cristo, a Bola de Neve Church, etc..

Dentro de cada tendência há o que se convencionou chamar de Denominações. Uma denominação é uma pessoa jurídica, dentro das regras e leis de um determinado país ou região. Pode haver várias denominações de tendência Presbiteriana (ou Luterana, ou Batista, ou Pentecostal, etc.) em um mesmo país ou uma mesma região. Ilustrando com a tendência Presbiteriana, no Brasil há pelo menos as seguintes denominações de tendência Presbiteriana: a Igreja Presbiteriana do Brasil – IPB (a original, criada em 1859, em meados do século 19, portanto), a Igreja Presbiteriana Independente do Brasil – IPIB (criada em 1903), a Igreja Presbiteriana Unida – IPU (criada em 1986, se não me engano), a Igreja Presbiteriana Conservadora – IPC, a Igreja Presbiteriana Fundamentalista – IPF, a Igreja Presbiteriana Renovada – IPR, etc., que foram todas criadas em datas diversas, ao longo do século 20. Todas essas denominações são presbiterianas, mas elas divergem em alguns aspectos, sejam doutrinários, sejam morais (regras de conduta), sejam nas formas de cultuar (mais sérias e formais, de um lado, mais descontraídas e espontâneas, do outro), sejam nas formas específicas de se organizar e se administrar. Algumas admitem a ordenação de mulheres, aceitam membros divorciados e casados de novo, admitem, dentro de certos limites, membros homossexuais, etc. A maioria é mais conservadora. Nos Estados Unidos a principal Igreja Presbiteriana aceita até o casamento entre homossexuais e a ordenação ao ministério de pessoas admitidamente gays.

Assim, temos, em princípio, várias tendências e inúmeras denominações que se rotulam como Luteranas, Presbiterianas (também chamadas de Reformadas), Anglicanas (também chamados de Episcopais), Batistas, Metodistas, Pentecostais, etc. são Pentecostais, Batistas são Batistas, Metodistas são Metodistas, etc. Todas essas tendências e denominações são reformadas no sentido mais amplo de que são frutos, direta ou indiretamente, da Reforma Protestante do século 16 — melhor seria dizer “das Reformas Protestantes do século 16”.

Quando a gente se refere a Luteranos, Presbiterianos, Anglicanos, Pentecostais, etc., a gente em geral está falando em tendências, ou seja, grupos de pessoas que compartilham determinadas crenças, valores (regras de conduta), liturgias (formas de cultuar), estruturas organizacionais (formas de se organizar em comunidades e se administrar), etc. Quando essas tendências se estruturam e organizam na forma de uma instituição reconhecida pela lei de algum país, ela se tornam denominações. A Igreja Presbiteriana — Estados Unidos (Presbyterian Church – US) e a Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) representam a mesma Tendência Presbiteriana mas são Denominações distintas — às vezes até bastante diferentes. A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) e a Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (IPiB), ambas brasileiras, representam a mesma Tendência Presbiteriana mas são Denominações distintas. A segunda, por exemplo, aceita a ordenação de mulheres; a primeira (ainda) não.

Da mesma forma que dentro da tendência Presbiteriana há, no Brasil, várias Denominações, mencionadas atrás, dentro da tendência Pentecostal também há várias Denominações, que são igrejas juridicamente organizadas que adotam, no básico e essencial, os princípios Pentecostais: Igreja Assembleia de Deus, Igreja Congregação Cristã, Igreja do Evangelho Quadrangular, etc. A Assembleia de Deus, a Congregação Cristã do Brasil, etc. são denominações consideradas históricas ou clássicas dentro do Pentecostalismo Brasileiro (embora os Pentecostais tenham surgido, nos Estados Unidos, apenas no início do século 20 — têm um pouco mais de um século, portanto). As denominações chamadas Neo-Pentecostais aqui no Brasil são aquelas surgidas ainda mais recentemente, por volta de 1970. Elas, cujos nomes já foram declinados, cresceram vertiginosamente, com sua ênfase no chamado “Evangelho da Prosperidade” e o uso intensivo de programas de televisão (para não mencionar cura divina, exorcismos e o falar em línguas estranhas), deixando as outras denominações Protestantes, Pentecostais ou não, para trás em tamanho (número total de membros).

Até aqui tudo parece, em tese ou em teoria, muito bem organizado. Mas a realidade, na prática, não é tão certinha.

5. O Protestantismo: Misturas de Tendências e Denominações

Algumas Denominações tradicionais, como várias das denominações Presbiterianas, por exemplo, para falar do que eu conheço melhor, ou algumas igrejas locais dentro dessas Denominações, de vez em quando passam a adotar características que, deixando de lado sua posição doutrinária tradicional, são geralmente usadas para identificar os Pentecostais: crer na existência dos chamados “Dons do Espírito”, com práticas já mencionadas: promover a cura divina, praticar o exorcismo, falar línguas estranhas, etc. Quando isso acontece, essas Denominações ou igrejas locais são normalmente qualificadas ou chamadas de avivadas ou carismáticas ou renovadas (até dentro da Igreja Católica há grupos ou mesmo alas consideradas avivadas ou carismáticas ou renovadas). Quando isso acontece, muita gente diz que essas Denominações, igrejas locais, ou grupos dentro de uma igreja local, “se pentecostalizaram”, o que quer dizer que assumiram características geralmente identificadas com a tendência Pentecostal. Em geral elas continuam presbiterianas, mas se consideram “Presbiterianas Carismáticas”, ou “Presbiterianas Avivadas”, ou “Presbiterianas Renovadas”, etc. Pode ser até que se separem da Igreja-mãe e formem outra Denominação, que abra mão do rótulo “Presbiteriano”. E pode ser que optem por se chamar de “Igreja Presbiteriana Pentecostal”, criando confusão na cabeça das pessoas, mas isso não é tão comum. Pelo menos, não era.

Às vezes há Denominações mais tradicionais que, diante da “Pentecostalização” de algumas de suas igrejas locais, ou de grupos dentro delas, colocam os “hereges” pra fora, mesmo que eles queiram permanecer dentro… Sendo postos para fora, eles, daí, não têm outra saída a não ser formar uma outra Denominação ou igreja local, que, com o tempo, se multiplica (cria “filhotes”, por assim dizer).

Esse costume de colocar para fora, mandar embora, expurgar, pessoas que adotam ideias ou comportamentos desviantes não se limita aos que defendem ou adotam ideias ou comportamentos relacionados ao Pentecostalismo. Isso se dá, também, e, em alguns casos, até com mais frequência, com ideias ou comportamentos considerados liberais, modernistas, seculares, em desacordo com as crenças e normas de conduta dentro da Denominação. Isso se dá, com maior frequência, dentro das Tendências Presbiterianas, em regra em relação aos “símbolos” chamados de Confissão de Fé e Catecismos (Maior e Menor) de Westminster. Mas discutir isso aqui já nos envolveria em questões por demais específicas e especializadas. Observo apenas que a Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (IPIB) saiu da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) voluntariamente, em 1903, e que a Igreja Presbiteriana Unida (IPU) foi formada por gente que, em sua maioria, foi colocada para fora da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), a partir de 1966.

6. Protestantismo: Tendências e Denominações Questionadas

Em penúltimo lugar, há algumas tendências religiosas que têm sua auto-identidade questionada (em geral por gente que não pertence a elas). Vou dar alguns exemplos.

Primeiro: Existe uma tendência que se denomina Unitária — ou Unitarista. Os que adotam essa tendência acreditam em Deus (aquele que os demais cristãos chamam de Deus Pai), mas não em um Deus Triúno, ou seja, não na Trindade. Jesus Cristo, para os Unitários, não é Deus, embora seja uma pessoa muito especial. Unitários seriam Cristãos, mesmo sem reconhecer a divindade de Cristo? Se não são Cristãos, são o quê? Eles surgiram dentro do Cristianismo Protestante. Em Genebra, em 1553, teve gente que foi executada na fogueira, por negar a Trindade. Miguel Serveto era o nome dele.

Segundo: Existe uma tendência que se denomina Mórmon — o nome oficial é “Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias”. Os Mórmons aceitam o Velho Testamento (a Bíblia dos Judeus, que as Igrejas Cristãs também aceitam) e o Novo Testamento (a Bíblia específica dos Cristãos). Mas eles aceitam também uma série de livros, como o Livro dos Mórmons, Doutrinas e Convênios, Pérola de Grande Valor, que são consideradas revelações divinas mais recentes, dadas no século 19 ao seu fundador e líder, Joseph Smith. Os Mórmons seriam Cristãos? A maior parte deles assim se considera, porque aceita a Bíblia, e, consequentemente, aceita Jesus Cristo — embora aceite também outros escritos, além da Bíblia, como autoritativos (se é que essa palavra existe em Português). Seriam eles Cristãos+, Cristãos-Plus — isto é, Cristãos Mais Alguma Coisa, da mesma forma que os Cristãos, inicialmente, eram Judeus+ ou Judeus-Plus, isto é, Judeus Mais Alguma Coisa, a “Alguma Coisa”, no caso, sendo a crença em que Jesus de Nazaré era o Messias (isto é, o Cristo, o Ungido) esperado pelos Judeus (depois que Jesus Cristo era o Filho de Deus, e, depois, que Jesus Cristo, como Filho de Deus, era o próprio Deus, em companhia do Espírito Santo, numa triangulação difícil de entender)?

E os Adventistas do Sétimo Dia, que também aceitam a Bíblia, mas consideram os escritos de Ellen White também como autoritativos? Também são Cristãos+ ou Cristãos-Plus?

Algo parecido acontece com os Mórmons e os Adventistas aconteceu no século 20 com os seguidores do Rev. Sun Myung Moon, um coreano que era pastor presbiteriano e resolveu criar sua própria igreja, hoje conhecida como Igreja da Unificação (na verdade o nome inteiro oficial é Associação do Espírito Santo para a Unificação do Cristianismo Mundial). Os seguidores do Rev. Moon foram apelidados de Moonies. Eles aceitam um livro, chamado Princípio Divino, que teria sido revelado ao Rev. Moon. Mas aceitam também a Bíblia inteira. Seriam eles também Cristãos+ ou Cristãos-Plus?

Evidentemente, Unitários, Mórmons, Adventistas, e Unificacionistas não são nem Católicos nem Ortodoxos. Seriam eles mais tendências mais novas dentro do Protestantismo, surgidas no século 19 e no século 20, nos Estados Unidos? Mas os Pentecostais também surgiram no século 20, nos Estados Unidos, e pouca gente lhes nega o direito de se chamarem cristãos.

Eu os considero Cristãos, sem o Plus ou o +, a todos eles. Mas muita gente não os considera nem Protestantes, nem mesmo Cristãos.

Para os que relutam em aceitá-los como Cristãos e Protestantes, eu argumento: os Luteranos não aceitam, além da Bíblia, o Livro de Concórdia como autoritativo? Os Presbiterianos, além da Bíblia, não aceitam também a Confissão de Westminster, outras confissões, e os escritos de Calvino (em especial as Institutas da Religião Cristã) como autoritativos? Isso impede Luteranos e Presbiterianos de serem considerados Cristãos e Protestantes?

Em último lugar, há o problema do termo “Evangélico”. No Novo Testamento, Evangelho é um termo grego que quer dizer “Boa Nova” ou “Boas Novas” — Boa Notícia ou Boas Notícias. Todos os Cristãos (ou, pelo menos, a grande maioria deles) aceitam as boas novas da salvação contidas no Novo Testamento, e, portanto, deveriam, ou, pelo menos, poderiam ser chamados de Evangélicos. Mas não são. Tradicionalmente, o termo Evangélico era considerado quase sinônimo de Protestante: Evangélico era alguém que seguia uma das tendências Protestantes. A partir de meados do século 20, porém, surgiu uma “Micro-Tendência”, dentro de diversas Denominações Protestantes, que, para se diferenciar de Protestantes Conservadores / Fundamentalistas, de um lado, e de Protestantes Liberais / Modernistas, de outro, resolveram se rotular de Protestantes Evangélicos (ou Evangelicais, ou Evangelicalistas — termos que eu acho horrorosos). Assim, quando alguém se diz Evangélico, simplesmente, será ele evangélico no sentido convencional (Protestante) ou no sentido mais recente (Protestante que não é nem Conservador / Fundamentalista, nem Liberal / Modernista), independentemente de qual seja a sua Denominação?

Esse fato criou algo interessante. Um Presbiteriano Evangélico (no segundo sentido) se sente, muitas vezes, mais próximo de um Metodista Evangélico do que de um Presbiteriano Conservador / Fundamentalista ou de um Presbiteriano Liberal / Modernista. E assim vai.

7. Protestantismo Não-Denominacional

Embora tenha dito que a questão discutida nos dois parágrafos anteriores fosse a última, vale a penas acrescentar uma rápida discussão de uma última questão, que, até certo ponto, é mais pessoal para mim. Dois dos cristãos mais conhecidos na segunda metade do século 20 foram C. S. Lewis e Billy Graham. Lewis era Anglicano e Graham, originalmente, Presbiteriano. Mas ambos alcançaram sucesso entre os Evangélicos (no segundo sentido) com uma proposta que transcende e, por isso ignora, limites denominacionais específicos. Lewis propôs um Cristianismo Básico, Puro e Simples, que ignora as diferenças e foca num núcleo de doutrinas e condutas que todo cristão, na sua forma de entender, deve aceitar. Graham, na prática, fez mais ou menos o mesmo. Nenhum dos dois fundou uma nova Denominação — mas os dois recomendaram que os cristãos focassem mais naquilo que os une (que lhes é comum) do que naquilo que os separa e divide (porque cada um pensa ou age de um jeito). Até os Católicos seriam considerados como irmãos por esses Cristãos Protestantes “Essencialistas”.

Leiam este texto, se necessário, mais de uma vez. Provavelmente, cada um de vocês pertence a alguma tendência, como Pentecostal, alguma Denominação, como Assembleia de Deus, ou até mesmo a uma Sub-Denominação, ou “Ministério”, como Assembleia de Deus Ministério Madureira, possivelmente, ou MInistério Belém, ou algum outro. Essa multidão de nomes pode assustar. Mas é importante que cada um saiba exatamente o que é, no que ele diverge de outras tendências, ou Denominações, ou Ministérios, e por que ele faz parte deste ou daquele Ministério, ou desta ou aquela Denominação.

É isso.

Em Salto, 14 de Julho de 2020 (publicado inicialmente no meu Blog Theological Space e, agora, republicado, com revisões e acréscimos, bem como com quebras em seções, aqui neste Blog Bate Papo Teológico, em 30 de Novembro de 2021, com retoques e pequenas modificações em 6 de Dezembro de 2021 e 13 de Dezembro de 2021.

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